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Pág. 273: A sociedade civil, reivindicando e, mais além, opondo-se ao planejamento e à gestão conservadores, é um importantíssimo agente modelador do espaço urbano, capaz de protagonizar resistências e pressões que abrem caminhos para ganhos de autonomia hic et nunc e podem ajudar a preparar uma futura ultrapassagem da sociedade heterônoma. Adicionalmente, os movimentos comprovam, com seus contraplanejamentos e suas eventuais experiências de autogestão, que a sociedade civil não pode ser apenas uma interlocutora ou “parceira” do Estado em matéria de planejamento e gestão: é preciso que ela geste as suas próprias propostas e, à revelia do Estado, apesar do Estado e contra o Estado, busque concretizá-las.

Because socially dominant interests have been institutionalized and resist change, major innovations in the city’s role, meaning, and structure tend to be the outcome of grassroots mobilization and demands; when these mobilizations result in the transformation of urban structure, we call them urban social movements. (CASTELLS, 1983b:xviii)

(…) Under the general terms (or urban struggles as we used to call them) we are considering very different forms of mobilization, from counter-cultural squatters to middle class neighbourhood associations and shanty town defense groups. Nevertheless they all seem to share some basic characteristics in spite of their diversity:

1.      They consider themselves as urban, or citizen, or, in any case, related to the city (or the community) in their self-dommination.

2.       They are locally-based and territorially defined, a feature that will be decisive in helping us to determinate their significance.

3.      They tend to mobilize around three major goals that we identified in our general overview and found to be crucial in our case studies; collective consumption, cultural identity, and political self-management. Furthermore, our tried and tested hypothesis is that only when the three themes combine in a movement’s practice does it bring about social change, while the separation of any of the goals and a narrow self-definition turn it into an interest group that will be moulded into the stablished institutions of society, so losing most of its identity and impact. We also pointed that these three goals were not arrived at by accident, but are the major points of opposition against the dominant logics of capitalism, informationalism and statism. (CASTELLS, 1983b:328).

Os ativismos sociais são um conjunto mais amplo de ações públicas organizadas, do qual os movimentos sociais seriam um subconjunto. Os ativismos, como ações públicas organizadas e relativamente duradouras, diferenciam-se de ações coletivas efêmeras e pouco organizadas ou desorganizadas como quebra-quebras (“vandalismo de protesto”), saques e outras; e como ações públicas, em sentido forte, diferenciam-se tanto da criminalidade ordinária e de organizações terroristas, quanto de grupos de pressão e lobbies, em sentido restrito, que tendem a atuar nos “corredores do poder estatal”, pressionando parlamentares ou administradores públicos e articulando tráfico de influências, entre outras atividades que não são propriamente públicas. (QUESTIONAMENTO)

Os movimentos sociais, de sua parte, seriam uma modalidade especialmente crítica e ambiciosa de ativismo social, distinta de ativismos “paroquiais”. Estes encaminham reivindicações pontuais, sem articula-las com questionamentos mais profundos, relativos a problemas nacionais e internacionais, e sem construir pontes entre a conjuntura, cujo domínio não ultrapassam, e as estruturas, que não chegam a tematizar. São, não raro, prisioneiros do ou contaminados pelo clientelismo.

As diferenças econômico-sociais entre os países determinam as grandes diferenças de perfil entre ativismos.

Enquanto nos países industrializados do Ocidente movimentos sociais são puxados quase exclusivamente pela classe média- e, no seu interior, pelas gerações mais jovens-, que cresceu fortemente após a Segunda Guerra Mundial, na América Latina são os estratos de baixa renda, indivíduos tanto jovens, como mais velhos, que fazem a força dos movimentos e apresentam exigências de melhorias econômicas. E os movimentos surgiram, normalmente, em uma situação de ameaça política, de não-representação e de penúria material, um quadro que é muito diferente do Estado do bem-estar europeu ocidental do período pós-guerra.

Pág. 280: É interessante observar que, embora o alargamento de horizontes demande articulação de esforços e de escalas (aquilo que os anglo-saxões têm chamado de politics of scale), um ativismo local, ou de base local, não precisa ser sempre “paroquial”. Um ativismo de base local pode ter uma agenda manifesta ou latente bastante crítica. E mais: um ativismo de base local pode ter como veículo de protesto manifestações culturais, em vez de ser, em sentido banal, “reivindicativo”. (EX: grupos de jovens em favelas e periferias das grandes cidades que, embebido na cultura hip-hop, se organizam para compor, discutir e divulgar mensagens anti-racistas e de protesto por meio da música e do grafite -> BH: DUELO DE MCS E REAL DA RUA).

Uma outra distinção útil e necessária é aquela entre ativismos urbanos stricto sensu e ativismos urbanos lato sensu. Ativismos urbanos em sentido estrito e forte giram em torno de problemas diretamente vinculados ao espaço social. A questão do acesso a equipamentos de consumo coletivo e, mais abrangentemente, as condições de reprodução da força de trabalho assumem, aqui, importância central. Trata-se de um tipo de ativismo que tem origem em um clamor pelo direito a cidade: luta por moradia e por infraestrutura  técnica e social, luta por regularização fundiária e desestigmatização de espaços segregados, luta por um maior acesso a equipamentos de consumo coletivo; enfim, luta por um espaço urbano mais agradável, mais “convivial” e menos injusto. Exemplos: ativismos de bairro convencional e ativismos ocupantes de imóveis vazios e abandonados.

Ativismos urbanos em sentido amplo e fraco, de sua parte, são aqueles que, embora tenham as cidades como seu palco preferencial, se referenciam apenas indiretamente pela espacialidade urbana. Sua existência gravita em torno de questões “setoriais” (melhores condições de trabalho e resistência contra a exploração e a opressão na esfera de produção, luta contra as desigualdades e injustiças de gênero etc.), ainda que a organização espacial dos ativismos possa ser sofisticada e os vínculos com as questões diretamente espaciais possam vir a ser bem percebidos (por exemplo, no caso do ativismo negro que não deixa espacar a relação discriminação social/segregação e estigmatização espaciais).

Classificação em 4 tipos de movimentos:

1)”Mero” ativismo urbano em sentido fraco: por exemplo, sindicato operário afinado com o estilo do “sindicalismo de resultados”, desinteressado de ou não sintonizado com uma crítica social ampla.

2) “Mero” ativismo urbano em sentido forte: por exemplo, uma associação de moradores completamente paroquial e refém do clientelismo

3)Movimento social urbano em sentido fraco: por exemplo, um movimento organizado em torno da resistência contra a globalização capitalista, seus pressupostos e seus efeitos.

4) Movimento social urbano em sentido forte: por exemplo, um squatting movement capaz de costurar diferentes questões, politizando amplamente a problemática da ocupação de imóveis mantidos vazios por razões especulativas e lutando para humanizar o espaço urbano e desenvolver um novo tipo de vínculo entre os moradores e seus espaços residenciais.

QUESTÃO PARA CIDADE QUE QUEREMOS: COMO SURGIU O GRUPO? O QUE INCENTIVOU? QUAIS OS RUMOS QUE VÊM PARA ESTE MOVIMENTO? COMO MATER O MOVIMENTO SEMPRE “VIVO”?

QUAIS AS “TÁTICAS” QUE SÃO UTILIZADAS (E COM QUAL FINALIDADE)? COMO FORAM DEFINIDAS? QUAIS FORAM AS “INSPIRAÇÕES”?

Página 282: Quadros conjunturais dos movimentos urbanos brasileiros (décadas de 70, 80 e 90)

Página 286: Com a luta de bairro, presa dentro dos limites de uma mentalidade “corporativista” e vulnerável, em sua acanhada escala, perante os riscos e perigos do caciquismo, de pouca renovação de líderes etc., a tendência é, sem dúvida, que os ativistas atuem como um grupo de interesse como outro qualquer. Nestas circunstâncias, a satisfação de uma demanda imediata tende a levar à dispersão ou à acomodação dos ativistas, e a associação de moradores.

Na luta a partir do bairro, a satisfação de necessidades básicas materiais, ainda que seja, via de regra, o elemento que deflagra a ação, não é o único. Os horizontes políticos mais amplos e a possibilidade (ou realidade) de articulação com outros ativismos e organizações em escala que vá além da microlocal vacinam contra a cooptação, ainda que não de um modo inteiramente eficaz, e começa a conferir ao ativismo o perfil de um verdadeiro movimento social.

Página 290: No Brasil, em que pesem as manifestações de resistência da sociedade civil, como associações de moradores, organizações de sem-teto etc., a sociedade se organiza, em larguíssima medida, a partir do Estado. Os orçamentos participativos disso dão testemunho, e mais ainda o dão as muitas associações de moradores clientelistas, às vezes até criadas por inciativas de políticos. A institucionalização de ativismos é, no Brasil, uma tendência fortíssima: assim como a pobreza cria, muitas vezes, grande vulnerabilidade às tendências de cooptação e domesticação. Para quem vivem em situação de penúria, se ressente da falta de atenção do Estado e não possui um “sistema imunológico” político-ideológico fortalecido por um processo de conscientização e conquista de autonomia, a institucionalização e mesmo a cooptação surgem, não raras vezes, como coisas contra as quais não se pode e talvez nem se queira lutar. (NOVOS MOVIMENTOS TEM SURGIDO, PRINCIPALMENTE APÓS JUNHO 2013).

Página 294: A “politofobia”, que anda de mãos dadas com o paroquialismo e o corporativismo territorial, não se confunde com o apartidarismo, muitas vezes mais declarado que respeitado pelas associações de moradores. Ela tem a ver, isso sim, com uma profunda “despolitização”, passando-se facilmente de uma desconfiança em relação aos políticos profissionais à rejeição pura e simples de temas tidos como “políticos”. Trata-se de uma postura reativa, “espontânea”, pouco esclarecida e não necessariamente de sabor libertário, podendo até ser conservadora.

PÁGINA 299: CIDADE QUE QUEREMOS É INTERESSANTE POIS SE TRATA DE UMA CONFLUÊNCIA DE MOVIMENTOS.

Página 301: Ao dizer-se “reificação do urbano”, o que se tem em mente á reificação da sociedade urbana concreta considerada em seu locus de realização densa, a cidade. Tomado como uma “substância” dotada de “vida própria”, o urbano é associado, precipuamente, à esfera da reprodução da força de trabalho, ainda que, em versão diluída, sirva, como cimento ralo, como referência para as questões das identidades mais variadas. É sobre essa reificação que se assenta a fetichização dos problemas urbanos, que é a leitura destes não como teias de relações entre indivíduos em meio à instituição total da sociedade, mas como uma relação entre cada grupo específico e o “seu” espaço, as “suas questões”.

Articular sem pasteurizar ou anular é, pois, um magno desafio para tosos os ativismos sociais na contemporaneidade. (SOUZA, 1988b).

O conformismo generalizado não é absoluto: apesar do desapontamento com a política estatal, não é todo ativismo que está em baixa.  (BRASIL 2016: MOVIMENTOS PRÓ E CONTRA IMPEACHMENT, OCUPAÇÃO DAS ESCOLAS, CIDADE QUE QUEREMOS OCUPANDO ELEIÇÕES- AS PESSOAS ESTÃO CLARAMENTE INCOMODADAS COM A SITUAÇÃO ATUAL.)

Página 304: A própria organização da economia e da sociedade, extremamente complexa, nos arrosta com uma multiplicidade de tipos de ação coletiva, desde meros grupos de interesse até movimentos sociais, todos com suas agendas próprias. Isso, por um lado, pode ser uma chance: a chance de aprofundamento dos debates, percebendo-se que várias questões possuem suas especificidades e que não são redutíveis a questão de produção, vista como “maior” a ponto de a ela atrelarem-se, subalternamente, a da opressão de gênero, a do racismo e outras; por outro lado, se os diferentes grupos r organizações não dialogarem e as agendas não forem integradas, as lutas inevitavelmente terão um perfil menos ou mais “corporativista”, e engedrarão os tipos de contradição ambulante há pouco assinalados: ambientalistas pouco sensíveis perante a problemática da exploração de classe, feministas de classe média com mentalidade de “neo-sinhazinhas”, ativistas antirracistas machistas e homofóbicos, e por aí vai. O panorama econômico-sóciopolítico-ideológico, portanto, é muito mais complexo nas cidades, principalmente nas grandes e nas metrópoles, que no campo.

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