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Ser autônomo significa dar-se a sua própria lei em vez de recebê-la como imposição -> tomar nas mãos o próprio destino: liberdade política e percepção da história como criação. A autonomia é o contrário do paternalismo, da tutela.

A não ser que a "lei", seja formal ou informal, escrita ou consuetudinária, livremente acordada por aqueles que deverão ser regidos por ela, mas sim imposta por um poder "superior", ou percebida como imposta por um tal poder, está-se diante de uma situação de heteronomia. Uma imposição heterônoma da lei pode ser proveniente de cima (opressão no interior de um grupo ou sociedade), mas também externa (opressão a partir da conquista ou ocupação de outro grupo ou sociedade) ou ainda, naturalística (atribuição de causas à natureza e culpabilização da natureza) ou "divina" (origem religiosa ou sobrenatural de formas e interdições).

A heteronomia se instala quando as leis e normas com base nas quais uma sociedade é, direta ou indiretamente, governada e organizada, são deliberadas não pelo conjunto dos indivíduos pertecentes a essa sociedade, de maneira tão lúcida e bem informada quanto possível, mas sim impingidas na base da opressão interna, da opressão externa e/ou "divinizadas" ou "naturalizadas". A heteronomia é, sempre, alienação política de uma parte da população, consentida ou arrancada a força. (Página 70)

Autonomia individual: tem a ver com a capacidade psicológica e a possibilidade material e institucional efetiva de cada indivíduo adulto de estabelecer fins para a sua existência e persegui-los de modo lúcido em igualdade de oportunidades com outros indivíduos pertencentes à mesma sociedade. Por outro lado, não há indivíduos autônomos, em qualquer sentido politicamente digno de nota, sem uma sociedade autônoma (e vice-versa). A autonomia coletiva tem a ver com a presença de instituições sociais que garantem igualdade efetiva - não apenas formal- de oportunidades aos indivíduos para a satisfação de suas necessidades e, muito especialmente, para participação em processos decisórios relevantes para a regulação da vida coletiva; em outras palavras, ela tem a ver com as instituições sociais que permitem a existência de indivíduos autônomos (livres) e de indivíduos educados para a liberdade, a sua própria e a dos outros. (vide CASTORIADIS , 1975; 1983a; 1986d; 1990c; 1996b).

A autonomia coletiva também pode ser entendida como sinônimo para democracia radical, também expressável como autogestão.

A liberdade e qualidade da vida privada do indivíduo são inseparáveis da liberdade que se pode gozar na vida pública: a liberdade para se informar confiavelmente, atuar e decidir sobre os negócios de interesse coletivo.

Uma sociedade livre é uma sociedade onde o poder se exerce pela coletividade da qual todos participam efetivamente na igualdade. A liberdade é liberdade de fazer - fazer é tanto fazer tudo sozinho quanto poder fazer com os outros. Fazer com os outros é participar, engajar-se, ligar-se numa atividade comum e aceitar uma coexistência organizada e empreendimentos coletivos nos quais as decisões são tomadas em comum e executadas por todos aqueles que participaram de sua formação. CASTORIADIS 1983a:16

Em uma sociedade autônoma o poder explícito não se traduziria como Estado (uma minoria governando a maioria), mas sim como autogoverno, em que todos os cidadãos seriam a um só tempo governantes (partícipes, em condições de igualdade, da elaboração de normas) e governados (submetidos ao nomos por eles mesmos instituído.).

Ser autônomo não é ser autônomo "contra os outros" mas sim junto com os outros, poder colaborar, cooperar; é poder ser livre para fazer as coisas com os outros, em benefício coletivo . (VISÃO KANTIANA, SUA LIBERDADE VAI ATÉ ONDE COMEÇA A DO OUTRO. REGRAS UNIVERSAIS (A PESSOA QUE ESCRAVIZA, POR EXEMPLO, NÃO DESEJA QUE A ESCRAVIDÃO SEJA ESTENDIDA A TODOS OS INDIVÍDUOS).

Habermas, na esteira de suas ressalvas contra o liberalismo, salienta o fato de que a autonomia individual, quando concebida divorciada da "autonomia pública", é uma abstração individualista, uma vez que os direitos subjetivos dos integrantes das minorias só podem ser formulados e expressos nos marcos de discussões públicas.

A importância prática do espaço como referencial para ações e projetos humanos. (Página 80) Não há alteridade que se concretize fora do espaço e sem referência ao espaço social.

Página 82: Diferenciação entre autonomia "em sentido forte" e autonomia "em sentido fraco": Em sentido forte a referência à autonomia equivaleria a ater-se a um horizonte de pensamento e ação: o projeto de construção de uma sociedade autônoma. Já o "sentido fraco" refere-se à necessidade de valorizar conquistas táticas e conjunturais em meio a uma navegação de longo curso, durante a qual, mesmo sem superar os marcos gerais heterônomos, avanços menores, localizados, para além do significado positivo que possam ter em si mesmos (redistributivo, político ou outro), podem colaborar, político-pedagogicamente, para abrir caminho para conquistas mais ambiciosas no futuro. (organizar a sociedade, ou a auto-organização da sociedade civil) .

é necessário criar e apoiar oportunidades para que amplas parcelas da população possam ter acesso a instâncias participativas que sirvam, consistentemente, como "escolas de cidadania crítica". Desde que as práticas participativas em nível local não sejam mero instrumento de manipulação ou domesticação, vitórias e conquistas tácitas (orçamento participativo realmente usado, por exemplo) podem significar muito mais que oportunidades para ganhos materiais: podem carregar, em seu bojo, uma dimensão político-pedagógica de valor potencialmente estratégico, por colaborar para a organização da sociedade.

Pequenas vitórias tácitas são importantes para a ruptura do sistema (avanços modestos, mas consistentes) -> claro que, se e quando essas experiências se alastrarem e articularem ao ponto de se tornarem muito "perigosas", os interesses dominantes não hesitarão, como nunca hesitaram em momentos decisivos, em lançar mão de uma repressão brutal, o que pode resultar em um processo de ruptura.

A POLÍTICA URBANA E A ESCALA LOCAL SÃO ARENAS FUNDAMENTAIS DE MOBILIZAÇÃO E EXPERIMENTAÇÃO.

A autonomia, enquanto ideal a ser perseguido, é "inesgotável" como a beleza ou a justiça, pois sempre poderá avançar mais. Aquilo que se poderia denominar de "plena autonomia" é uma abstração, que serve como farol, como um horizonte referencial de pensamento e ação. (SOUZA, 2002:187)

Castoriadis: "Uma sociedade justa não é uma sociedade que adotou leis justas para sempre" mas sim " (..) uma sociedade onde a questão da justiça permanece constantemente aberta".

Uma sociedade basicamente autônoma que lucidamente se abre para a possibilidade de superar-se a si própria, aprimorando-se, compreendendo-se como um movimento de auto-organização, e cônscia. inclusive, de sua "dimensão trágica": o perene risco de retrocesso e recuo.

A autonomia é incompatível com o princípio da representação.

Um representante eleito, como foi visto, é alguém que recebe um mandato de quem o elegeu para decidir em nome dos cidadãos, dentro de uma vastíssima margem de manobra. Embora, em tese, representantes sejam eleitos com base em uma plataforma ou programa (em tese, porque se sabe muito bem que, mesmo e democracias ditas avançadas, fatores como "carisma" e mesmo atributos físicos dos candidatos e candidatas, desempenham um papel substancial, sempre em meio a um maciço e caro bombardeio publicitário) (+ BRASIL: ELEIÇÕES MAIS CARAS DO MUNDO, LÍDERES RELIGIOSOS), no fundo os pretensos representantes dispõem de ampla liberdade para decidir conforme sua consciência - e, acima de tudo, de acordo com sua conveniência.

Para os defensores do status quo isso não é exatamente um problema, embora um pouquinho mais de transparência ali e accountability acolá sejam úteis, como é costume sustentar, para evitar ou corrigir eventuais "imperfeições" e "distorções". É conhecido o argumento segundo o qual os indivíduos querem, no fundo, ser liberados do fardo de terem de ocupar, eles mesmos, com os negócios de interesse coletivo, coisa que faria com que qualquer "imperfeição" do sistema representativo fosse um mal menor diante do grande benefício que ele traz.

Não se pode generalizar que todos os cidadãos querem, de fato, se alienar do poder decisório e que todos têm plena e madura consciência dos riscos que ocorrem e do preço que pagam por serem as coisas do jeito que são. A posição pró-democracia representativa ignora, convenientemente, que a opinião pública é, a esse respeito (como a respeito de muitas outras coisas), comumente uma opinião bruta, encharcada de ideologia conservadora veiculada pela mídia, e não uma opinião pública "refinada" pela exposição suficiente a informações e argumentos contrastantes. (INFLUENCIA DA MIDIA - 2016: O QUE A GLOBO MOSTRA SOBRE O IMPEACHMENT, POR EXEMPLO?)

A autonomia coletiva corresponde, no fundamental, a uma democracia sem aspas.

Mais interessante do que uma experiência de gestão participativa promovida pelo Estado, de um ponto de vista autonomista, são essas experiências de mobilização e organização populares protagonizadas por movimentos sociais, para quem a palavra autonomia tem assumido um significado central como ideia-força que sintetiza a luta por autogestão, estruturas não-hierárquicas e horizontais, marcando um forte contraste com "la izquierda tradicional".

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